Marajó clama por atenção do Governo
Em Salvaterra, as ruas são assim: só areia e cascalho. Moradores são obrigados a viver com lama e poeira. (Foto: Fernando Araújo)
Navio atracado no Porto de Camará, a viagem que se segue leva a caminhos que, sem dúvida, teriam potencial para se tornar um dos destinos mais procurados pelos turistas no Brasil. À medida que a van percorre a estrada que leva até o centro do município de Salvaterra, porém, os problemas de infraestrutura enfrentados por moradores e visitantes ficam aparentes e causam indignação.
Detentora de paisagens naturais belíssimas e bastante visada pelos turistas que pretendem conhecer o Marajó, Salvaterra ainda falha no atendimento aos próprios ‘filhos da terra’ por falta de investimentos. De pé todos os dias por volta das 3h para dar início ao serviço de utilidade pública executado diariamente, Francisco Fontenele é um dos trabalhadores que suprem parte das deficiências de locomoção que ainda existe na cidade através do transporte alternativo. Desde que decidiu fixar moradia na cidade natal novamente, há dois anos, ele começou a vivenciar os problemas da cidade mais de perto. “O Marajó tem realmente um potencial turístico muito grande, mas nenhum político quer investir aqui. O governo do Estado se reelegeu agora e até hoje não tem nenhuma obra dele aqui”, constata, diante de deficiências na área da saúde, transporte, saneamento, segurança. “Aqui não se faz porque não tem interesse político. O prefeito daqui também é do PSDB (partido do governador reeleito, Simão Jatene), que poderia buscar mais investimento na cidade, mas a gente não vê diferença nenhuma por causa disso”.
Acessada de carro através da rodovia PA-157, que segue desde o Porto de Camará até o centro da cidade, Salvaterra ainda mantém grande parte das ruas sem asfalto. Das ramificações surgidas a partir da rodovia principal, uma das poucas asfaltadas há mais tempo, as ruas que seguem ainda são amontoados de poeira e cascalho. “Agora na época da política que jogaram um asfalto recente em umas poucas ruas aí, mas a maioria não é asfaltada, não”, confirma Francisco. “O asfalto da PA que é antiga, o resto que tem é recente, obra eleitoreira. Passou a política, parou.”
Ignorando a distância e as dificuldades de acesso à capital paraense, a cidade que figura entre as mais conhecidas do Marajó dispõe de apenas um hospital público de maior porte, além das unidades básicas de urgência administradas pela prefeitura. Mesmo que a doença não seja das mais graves, porém, não é toda vez que a população local pode contar com o atendimento de saúde. “Aqui só tem um hospital, o resto é posto médico pequeno. Ainda por cima não tem médico (no hospital), não tem remédio”, reclama o motorista. “A pessoa quebrou o braço, uma perna, tem que botar na ambulância e mandar pra Belém. Quando tem uma febre é que dá para tratar aqui”.
Cercada por moradias com grandes quintais, o saneamento básico também é artigo desconhecido em Salvaterra. Desde que saiu da cidade para morar no Rio de Janeiro aos 10 anos, o aposentado João Campos espera pela instalação de uma rede de esgoto no município, serviço básico que até hoje, 35 anos depois, ainda não chegou. “Não tem quase nada de rede de esgoto. Eu acredito que em Salvaterra não tenha nem 10% de rede de esgoto”, estima. “O que as pessoas têm aqui é o que chamam de ‘fossa perdida’. Como as casas têm quintais grandes, eles fazem tipo uma fossa e jogam tudo lá, mas não tem um sistema geral que capte esse esgoto e faça o tratamento na cidade”.
Ainda que o cenário revisitado já há três meses seja bem diferente da época em que João morou em Salvaterra pela primeira vez, na infância, ele não nega que esperava ver mais desenvolvimento na região como um todo. “A ilha do Marajó tá abandonada, deixada de mão. Não há investimento em infraestrutura de forma geral"
As dificuldades apontadas pela população em Salvaterra são novamente conhecidas em Soure, município vizinho. Diante da tradicional mensagem de boas vindas instalada na entrada da cidade, os problemas começam com o deslizamento de parte do porto. Para muitos moradores do local, a sáude é o principal problema do município, mas as outras dificuldades enfrentadas pela população local são inúmeras.
Morador de Soure desde o nascimento, porém, o pescador João Carlos Santos, 61 anos, vê na saúde o principal problema do município. Já tendo enfrentado três cirurgias no coração, a cidade onde mora não oferece, segundo ele, atendimento cardiológico no único hospital de maior porte no local. “Nem toda vez tem medicamentos. Geralmente tem que ir para Belém. Eu mesmo só me trato em Belém, já fiz três cirurgias, todas lá”, lembra. “Aqui não tem cardiologista. Se tiver alguma coisa no coração, tem que tomar um remédio qualquer aqui e ir correndo para Belém. O governo não se empenha para fazer alguma coisa pela gente... a gente pena”.
ELEIÇÕES
Em Soure, 60,49% dos votos válidos foram destinados ao candidato da oposição, Helder Barbalho, o correspondente a 7.410. Já os votos recebidos pelo governador Simão Jatene (4.840 votos) foram inferiores às abstenções, que chegaram a 6.083. Também em Salvaterra, o candidato da oposição, Helder Barbalho, recebeu a maioria dos votos, com preferência de 52,34% ou 5.955 votos.
(Diário do Pará)
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